A Literatura no vestibular tem um grande peso, especialmente na segunda fase que é dissertativa. Na Fuvest, por exemplo, o primeiro dia da segunda fase tem redação e questões de português para todos os cursos, no geral as pessoas costumam ir mal nesse dia, pois deixam de lado a interpretação de textos e literatura na hora de estudar, então quem se dedica nessas matérias pode avançar sobre muitos concorrentes.

Por isso é de grande importância treinar em exercícios sobre as obras literárias desde o começo do ano. Para ajudar aos estudantes e vestibulandos, hoje eu trouxe algumas dicas e questões sobre os novos livros da Lista de Obras da Fuvest e Unicamp.

Veja perguntas e respostas comentadas sobre o livro Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, e sobre o Livro Memórias Póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis.

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Exercícios sobre os Livros “Viagens na Minha Terra” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”

“Sim, leitor benévolo, e por esta ocasião te vou explicar como nós hoje em dia fazemos a nossa literatura. Já me não importa guardar segredo; depois desta desgraça, não me importa já nada. Saberás, pois, ó leitor, como nós outros fazemos o que te fazemos ler”.

Trata-se de um romance, de um drama. Cuidas que vamos estudar a História, a natureza, os monumentos, as pinturas, os sepulcros, os edifícios, as memórias da época? Não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nós o somos. Desenhar caracteres e situações do vivo da natureza − colori-los das cores verdadeiras da História… Isso é trabalho difícil − longo − delicado; exige um estudo, um talento, e sobretudo um tacto!… Não, senhor, a coisa faz-se muito mais facilmente. Eu lhe explico.

− Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas damas, Um pai, Dois ou três filhos de dezanove a trinta anos, Um criado velho, Um monstro, encarregado de fazer as maldades, Vários tratantes, e algumas pessoas capazes para intermédios.

Ora bem; vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugénio Sue, de Vítor Hugo, e recorta a gente, de cada um deles, as figuras que precisa, gruda-as sobre uma folha de papel da cor da moda, verde, pardo, azul – como fazem as raparigas inglesas aos seus álbuns e scrap-books; forma com elas os grupos e situações que lhe parece; não importa que sejam mais ou menos disparatados. Depois vai-se às crônicas, tiram-se uns poucos de nomes e palavrões velhos; com os nomes crismam-se os figurões; com os palavrões iluminam-se… (estilo de pintor pinta-monos). – E aqui está como nós fazemos a nossa literatura original. “

(Capítulo. V – fragmento) in Garrett, Almeida. “Obra Completa – I”, Porto, Lello & Irmão, 1963, pp. 27-28.

Almeida Garrett (1799-1854), que pertenceu à primeira fase do romantismo português, é poeta, prosador e dramaturgo dos mais importantes da Literatura Portuguesa. Em Viagens na Minha Terra (1846), mistura, em prosa rica, variada e espirituosa, o relato jornalístico, a literatura de viagens, as divagações sobre temas da época e os comentários críticos, muitas vezes mordazes, sobre a literatura em voga, no período. Releia o texto que lhe apresentamos e, a seguir, responda:

1)  (Vunesp-SP) A que gêneros literários se refere Almeida Garrett?

2) (Vunesp-SP) Quais os principais defeitos, segundo Garrett, dos escritores que elaboravam obras de tais gêneros?

3)(Vunesp-SP) No texto apresentado, Garrett dirige-se mais de uma vez ao leitor, de maneira informal e descontraída, como se estivesse dialogando com ele. Baseando-se nessa informação, mostre de que modo o tom de informalidade se revela também nas formas de tratamento gramatical que o escritor usa para dirigir-se ao leitor.

4) Em que consiste a ironia do trecho ” E aqui está como nos fazemos a nossa literatura original”, no final do texto transcrito?

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Começo a arrepender-me deste livro. Não que ele me canse; eu não tenho que fazer; e, realmente, expedir alguns magros capítulos para esse mundo sempre é tarefa que distrai um pouco da eternidade. Mas o livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contração cadavérica; vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem…

E caem! — Folhas misérrimas do meu cipreste, heis de cair, como quaisquer outras belas e vistosas; e, se eu tivesse olhos, dar-vos-ia uma lágrima de saudade. Esta é a grande vantagem da morte, que, se não deixa boca para rir, também não deixa olhos para chorar… Heis de cair.

                                                             Machado de Assis, Memórias Póstumas de Brás Cubas (Capítulo LXXI: O senão do livro)

 5) Tanto no texto de Almeida Garrett como no de Machado de Assis, ocorre Metalinguagem, e ambos os autores, além de tecer comentários acerca de literatura, dirigem-se a seus leitores, cada qual pressupondo um tipo de leitor. Comente acerca do tipo de leitor que Garrett e Machado tem em mente quando tecem seus comentários.

 6) No texto de Machado de Assis, explique o emprego dos pronomes demonstrativos este e esse nos trechos ” Começo a arrepender-me deste livro “expedir alguns magros capítulos para esse mundo”, considerando a relação espacial que esses pronomes evidenciam.

Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não delapidada (…) Interessou-me aquela janela.Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali?

Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço. Pareceu-me entrever uma cortina branca… e um vulto por detrás… Imaginação decerto! Se o vulto fosse feminino!… era completo o romance.

Como há-de ser belo ver pôr o Sol daquela janela!…E ouvir cantar os rouxinóis!…E ver raiar uma alvorada de Maio!… 

                                                                                                                                 Almeida Garrett, Viagens na MInha Terra (Capitulo X)

7) (Fuvest-SP) Com dados extraídos do texto, explique o papel da natureza na estética romântica.

8 ) “Para mais realçar a beleza do quadro, vê-se por entre um claro das árvores a janela meia aberta de uma habitação antiga mas não delapidada” –  Comente o emprego da palavra meia, `a luz das normas gramaticais atuais.

Respostas e Comentários

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1) Refere-se aos gêneros literários românticos (na prosa) e ao drama (no teatro).

2) Segundo Garrett, tais escritores não desenvolvem literatura original, recorrendo a fórmulas prontas de como escrever – ” Todo o drama e todo o romance precisa de: Uma ou duas damas, um pai (…)” – e a elementos de outras literaturas – “vai-se aos figurinos franceses de Dumas, de Eugenio Sue, de Victor Hugo, e recorta a gente”. Trata-se de uma critica ao modo de produção literária de sua época.

3) O autor usa a segunda pessoa do singular como pronome de tratamento (tu), que no português “de Portugal” é mais informal, como acontece no trecho “te vou explicar”; e também utiliza um vocabulário informal como em “não seja pateta, senhor leitor, nem cuide que nos o somos”.

4) A ironia consiste no fato de o autor explicar nos parágrafos precedentes a “fórmula pronta” utilizada para escrever prosa, o que acaba com a originalidade. A crítica dirige-se aos escritores da estilo da época - o Romantismo – especialmente `a literatura de folhetim.

5) O leitor pressuposto por Garrett é ingenuo – iludido com os princípios literários da época - o que pode ser percebido em “não seja pateta, senhor leitor”, isso porque esse leitor se engana quanto a originalidade das obras.

Já  Machado de Assis trata seu leitor como ávido, que busca chegar logo ao desfecho da narrativa, algo identificado no contexto do Realismo (que buscava a escrita direta, objetiva e cientifica), o que é visto em “tu amas a narracao direta e nutrida”.

6) O narrador, Brás Cubas, trabalha com a primeira pessoa na narração, assim utiliza “deste livro” referindo-se ao objeto que encontra-se próximo a ele enquanto escreve. Quando se refere ao mundo, utiliza “esse” porque o assunto/objeto está próximo ao leitor, tratado como segunda pessoa.

7) A beleza e estética românticas são baseadas na expressão dos sentimentos e emoções do sujeito. Nesse contexto, a natureza é um modo de representação do estado de espirito do sujeito. “Como há de ser belo ver o por-do-sol daquela janela” exemplifica o tom alegre da passagem em que Garrett descreve a casa da menina dos rouxinóis. 

8 ) Segundo as normais atuais, o uso de “meia” está desviado, pois na norma culta o advérbio nao concorda com o substantivo, no caso ” janela ” e o padrão seria ” janela meio aberta”. 

Nota : na epoca em que o livro foi publicado essa norma nao existia.

** Tem dúvidas ou comentários sobre as Obras Literárias do Vestibular? Mande-os para o Abc da Medicina e participe das discussões literárias …