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Literatura e Arte

As Intermitências da Morte – Resenha do Livro e Reflexões

Olá, queridos leitores! Nesse feriado, aproveitei a folga para terminar a leitura do livro que estou lendo para o Grupo de Leitura aqui da minha faculdade – "As Intermitências da Morte" de José Saramago. E, como não poderia deixar de acontecer, eu resolvi postar uma resenha aqui no Blog com uma breve análise e comentários sobre esse livro super interessante que acabei de conhecer. 

Foi o segundo livro de José Saramago que li e gostei bastante das reflexões que ele traz, muitas críticas e um humor ácido em muitos momentos. Alguns temas me interessaram particularmente por ser estudante de medicina e vou comentar na análise mais a frente: relação das pessoas com a proximidade da Morte, doentes terminais e o desejo de aliviar um sofrimento pela morte induzida, envelhecimento da população e suas repercussões sociais e econômicas. 

Capa do Livro - Edição Companhia das Letras

Capa do Livro – Edição Companhia das Letras

Sinopse do Livro "As Intermitências da Morte"

"Cansada de ser detestada pela humanidade, a ossuda resolve suspender suas atividades. De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema. Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre." (Fonte: Livraria Cultura)

Sobre o Autor: José Saramago

José Saramago nasceu em 1922, de uma família de camponeses da província de Ribatejo, em Portugal. Exerceu diversas profissões – como serralheiro, desenhista, funcionário público e jornalista – antes de se dedicar só à literatura. Prêmio Nobel em 1998, é autor de algumas das obras mas relevantes do romance contemporâneo, como O Evangelho Segundo Jesus Cristo e Ensaio sobre a Cegueira, publicado pela Companhia das Letras. (Fonte: Livro As Intermitências da Morte, 1ª edição, Companhia das Letras)

Foto do autor português José Saramago

Foto do autor português José Saramago

Resenha e Análise da Obra de José Saramago

Há duas partes no livro, publicado em 2005, as quais são bem distintas e trazem características interessantes para refletirmos. O livro começa quando, num determinado país, as pessoas param de morrer. A princípio essa ideia poderia parecer maravilhosa, os humanos finalmente tendo acesso à uma vida eterna, porém não demora para que todos percebam as terríveis consequências desse fato. As pessoas continuam a envelhecer, as doentes e "à beira da morte" não morrem mais, ficam suspensas e ligadas à vida por uma linha frágil.  

** Atenção, spoilers na análise** 

As primeiras manifestações e reações à ausência da morte são no ambito econômico, pois os governantes ficam preocupados com os custos de manter uma população já não mais ativa economicamente – doentes terminais que não irão mais morrer. A isso se seguem as manifestações das empresas de seguros, das funerárias que tiveram seu material de trabalho anulado, os hospitais ficam super lotados e sem leitos para receber novos pacientes e as casas de idosos que também ficam sem poder receber novos clientes e ficam sobrecarregadas também.

Uma das soluções é enviar os morimbundos para suas casas, assim os parentes virarão seus cuidadores. Porém isso gera um grande desconforto e conflito na população, pois a cada dia mais e mais pessoas precisam ser cuidadas, há o desgaste físico e emocional desses cuidadores. Muitos começam a refletir que o seu futuro será somente o de cuidar dos que não conseguem mais morrer, por exemplo.

Como em outros países a morte continua a ocorrer, surge a ideia de ultrapassar a fronteira  e enfim alcançar o alívio da morte, essa primeira ideia ocorre a um idoso que lucidamente pede a seus filhos que o levem para morrer em paz. Todos os vizinhos ficam sabendo deste fato e a notícia se espalha rapidamente pelo país, e logo começa uma onda de viagens clandestinas às fronteiras do país para que as pessoas possam finalmente morrer. Inicia-se um conflito com os países vizinhos e o governo tem que instituir um controle, mesmo que parcial, à essa migração. Nesse momento, surge a Maphia com ph, uma instituição que cobra para fazer o despacho dos morimbundos e rapidamente ganha força no país. 

Nessa primeira parte do livro, a narrativa se concentra em dissecar como o ser humano lida com a parada da morte e como sua moral é subvertida por ideais individualistas e circunstanciais. Quem já leu o livro sabe os dilemas levantados pelo autor que desnuda o cinismo e hipocrisia de certas escolhas feitas pela população. Ficou claro que o autor trouxe á tona temas polêmicos em nossa atualidade como:

  • Questão do Estado de bem estar social da Europa e a crise economica que ele suscitou, pois a população envelhece e tem uma cada vez uma expectativa de via mais alta e o sistema organizacional atual não dá conta de sustentar a todos
  • Possibilidade de escolha das pessoas sobre sua morte, em alguns poucos países a Eutanásia é permitida – opção que um paciente doente e sem perspectivas de cura tem de escolher morrer e não ter de passar por um período de elevado sofrimento;

foto-morte

Na segunda parte do livro, as coisas mudam, a morte torna-se uma personagem ativa na história e rende episódios inusitados. Ela anuncia que, devido a todo o caos que a interrupção de suas atividades causou, retornará à antiga ocupação a meia-noite daquele dia, para fazer tal anuncio a morte envia uma carta ao diretor da emissora de televisão para que ele faça a leitura em rede nacional. Novos alvoroços decorrem, muitas pessoas que estavam em morte-suspensa morrerão de uma vez, o caos se instala porque há diversos problemas logísticos – e o humor reside nas soluções encontradas pela população para lidar com a situação. 

Logo depois, meio que arrependida, a morte decide que enviará cartas para cada pessoa que for morrer, com uma antecedência de 8 dias para que elas possam colocar suas coisas em ordem e partir em paz. O que sucede novamente é a confusão proque muitos enlouquecem diante da notícia de sua morte, outros ao invés de deixar as coisas em ordem e se despedir da família, caem em gastos absursos, bebedeiras e orgias. Mas a morte sustenta sua posição, enviando cartas diariamente. Até que uma coisa inusitada acontece, uma de suas cartas volta, pois não consegue chegar a seu destinatário e no final, a pessoa que deveria morrer em uma determinada data acaba por não morrer. A morte decide ir investigar quem foi essa única pessoa que fugiu do seu poder e resolver a situação.

A morte descobre que a pessoa que tornou-se agora um imortal é um violoncelista e vai conhecer sua rotina, o que faz, o observa de perto… e adivinhem só? Se apaixona por ele, esse ponto da obra foi uma real surpresa para mim, porque achei engraçado que acontecesse justo num livro de José Saramago. A morte personifica-se e toma a forma de uma mulher, era um disfarce para que ela conseguisse afinal entregar uma nova carta de morte, mas apaixonada e vivenciando sentimentos humanos e frágeis acaba por desistir da sua resolução inicial! O livro termina meio aberto, com a mesma frase com a qual se iniciou: "No dia seguinte ninguém morreu". 

Achei esse comentário muito bom sobre o livro: "As intermitências da Morte, enfim, faz mais que o papel de uma narrativa circular e ficcional, usando como personagem um dos maiores temores humanos. É uma leitura nitidamente crítica e que representa, além dos próprios cânones dele, uma obra tipicamente ¨saramaguiana¨ que critica além dos contratos sociais, o próprio homem, humanizando a própria morte." (fonte site Interrogação, matéria de 2010)

Alguns Trechos e Comentários do Livro 'As Intermitências da Morte"

Durante todo o texto, Saramago escreve com seu estilo próprio, sem pontuação, sem marcação de falas e sem letras maiúsculas nos nomes próprios – por exemplo quando fala do compositor Bach ou mesmo da própria morte. O leitor é sempre mencionado pelo narrador que é em feito em terceira pessoa e onisciente. Vejam abaixo algumas frases e trechos do livro que mostram os pontos que discutimos acima e exemplos do humor crítico de Saramago:

"A morte conhece tudo a nosso respeito, e talvez por isso seja triste"

"Estimado senhor, para os efeitos que as pessoas interessadas tiverem por convenientes venho informar que a partir da meia-noite de hoje se voltará a morrer tal como sucedia, sem protestos notórios, desde o princípio dos tempos (…) devo explicar que a intenção que me levou a interromper a minha actividade, a parar de matar, a embainhar a emblemática gadanha que imaginativos pintores e gravadores de outro tempo me puseram na mão, foi oferecer a esses seres humanos que tanto me detestam uma pequena amostra do que para eles seria viver sempre"

"A vida é uma orquestra que sempre está tocando, afinada, desafinada, um paquete titanic que sempre afunda e sempre volta à superfície"

"É natural que a curiosidade de quem vem seguindo esse relato com escrupulosa e miudinha atenção, à cata de contradições, deslizes, omissões e faltas de lógica, exija que lhe expliquem com que dinheiro vai a morte pagar a entrada para os concertos"

Espero que tenham gostado da resenha do Livro e, para quem não leu, fica a dica de leitura!! Abraços e até a próxima!!

Assuntos do Artigo
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Sobre o autor | Website

Sou estudante do 4º ano de Medicina na Faculdade de Medicina da USP, blogueira desde 2012 quando fazia Cursinho pré-vestibular. Há poucos meses comecei o Vlog Mediários no You tube.

1 Comentário

  1. Giovanni Rosalino disse:

    Olá Bianca! Tudo bem?

    Bianca, adorei seu vocabulário e os pontos que elencou! 
    Também li o livro, seguindo sua dica e do Fábio, e achei incríveis o olhar panorâmico do Saramago nas situações e seu humor para descrever a morte. 

    Trazendo uma impressão minha, achei bem atual a relação entre aumento da longetividade e recrudescimento do desmazelo para com os idosos. Parece-me que, tanto no livro do saramago como nos dias de hoje, maior presença dos idosos leva a maior despresença no trato com eles, sendo que os idosos são cada vez mais tratados com menos afago e maior abandono. 

    Abordando, agora, uma relação com uma notícia; vi, creio que em junho, que governos de algumas províncias chinesas estão terceirando seus serviços para a população. Com o fim de desonerarem-se, ou mais claramente, de gastarem menos, os governos, como na história de Saramago, estão repassando os pais aos filhos. 

    Dita a impressão a respeito do descuidado com o aumento da longetividade, e a relação das mudanças atuais com as quais aconteceram no livro, vê-se que intermetências da morte é muito atual, né? Explora muitas questões, além de o humor, no final, ser muito massa! 

    Enfim Bianca, quis deixar esse comentário para quem lê, pensando que pode ser legal e produtivo! 😀
    Ahh, acrescento mais uma coisa: 
    Vc lembra da história da tigela? Aquela que falava que o filho fez uma tigela para o pai com o fim de este perceber o tratamento ruim que estava dando ao avô?
    Pois bem, ao contá-la ao meu pai, ele recomendou-me uma música que traz a mesma moral da história. Segue a música: 

    https://www.youtube.com/watch?v=941LeEXvRCQ

    Eu não gostei muito! hahaha Mas achei legal por sem bem parecida com a história da tigela e devido ter um mujido de um boi no começo para aflorar as emoções! 
    Sempre vale a pena curtir um mujido! hahahaah

    Obrigado pela leitura, e boa semana pra vc!
    Beijos e até uma próxima! 😀

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