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Vestibular

Mayombe – Resumo e Análise da Obra de Pepetela, Dicas para Fuvest

Olá, queridos leitores do ABC da Medicina! Hoje estou trazendo mais um dos meus clássicos resumos sobre Obras que caem no Vestibular, vou falar sobre o Livro Mayombe recentemente adicionado à lista de leituras obrigatórias da FUVEST. Nest post trarei informações sobre o autor angolano Pepetela, sobre o Contexto Histórico do livro, farei uma resenha com análise dos temas abordados e mais. Não deixem de ler e comentar o que acharam e depreenderam da leitura =)

Capa do Livro Mayombe

Capa do Livro Mayombe

Sinopse do Livro

"Publicado originalmente em 1980, 'Mayombe' foi escrito durante a participação de Pepetela na guerra de libertação de Angola, e retrata o cotidiano dos guerrilheiros do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) em luta contra as tropas portuguesas. O romance se propõe a abordar não somente as ações, mas os sentimentos e reflexões daquele grupo, as contradições e conflitos que permeavam sua organização e as relações estabelecidas entre pessoas que buscavam construir uma nova Angola livre da colonização. " 

Sobre o Autor

Pepetela é o pseudônimo de Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, um escritor angolano que nasceu em Benguela, 29 de Outubro de 1941. A sua obra reflete sobre a história contemporânea de Angola, e os problemas que a sociedade angolana enfrenta. Durante a sua adolescência, um tio seu que era jornalista, introduziu-lhe a uma variedade de pensadores da esquerda. Durante os seus anos do liceu em Lubango, Pepetela também foi influenciado por um padre esquerdista chamado Noronha, que lhe informou sobre a revolução e outros eventos contemporâneos.

Pepetela se licenciou em Sociologia e é docente da Faculdade de Arquitetura da Universidade Agostinho Neto em Luanda. O autor angolano é de ascendência portuguesa, porém tornou-se militante do MPLA em 1963 e lutou no movimento para a libertação da sua terra natal do poderio colonialista dos portugueses. 

Contexto Histórico da Obra

A Guerra de Independência de Angola, também conhecida como Luta Armada de Libertação Nacional foi um conflito armado entre as forças independentistas de Angola (UPA/FNLA, MPLA e UNITA) e as Forças Armadas de Portugal, que até então dominavam a colônia angolana. A guerra teve início em 4 de Fevereiro de 1961, durou mais de 13 anos e terminou com um cessar-fogo em Junho (com a UNITA) e Outubro (com a FNLA e o MPLA) de 1974. A independência de Angola foi estabelecida a 15 de Janeiro de 1975, com a assinatura do Acordo do Alvor entre os quatro intervenientes no conflito.

Pepetela, que foi militante na guerra, publicou vários romances durante o período de luta, destes romances Mayombe é o mais conhecido. O romance retrata a vida guerrilheira do autor nos anos 70, e explora os pensamentos e as dúvidas dos personagens, além de ilustrar as ações dos guerrilheiros.

Foto do Autor Pepetela - Ganhador do Prêmio Camões com o Livro Mayombe

Foto do Autor Pepetela – Ganhador do Prêmio Camões com o Livro Mayombe

Resenha – Análise do Livro Mayombe

Como disse acima, o livro se passa na época da guerra para a Libertação de Angola, mostrando os combatentes, seus pensamentos e ações na luta. Mayombe é um livro que apresenta vários focos narrativos, há um narrador onisciente que dá uma unidade ao enredo, mas este se intercala com as vozes de cada personagem que narra em primeira pessoa os fatos que estão ocorrendo, seus pontos de vista sobre as motivações da guerra e seus conflitos interiores. Isso dá ao livro um caráter único, pois ouvimos as vozes e perspectivas de todos os que estão a fazer o movimento, e as opiniões são por vezes divergentes o que reflete a heterogeneidade que compõe o povo de Angola. 

A história se passa na Floresta do Mayombe, onde os guerrilheiros tem uma base militar e planejam os ataques aos colonos portugueses. A descrição da mata que aparece logo no início do livro é de uma poesia única, e ao longo do livro podemos perceber como a floresta também representa um personagem com vida e importância na obra. Veja no trecho a seguir da abertura do livro:

"As árvores enormes, das quais pendiam cipós grossos como cabos, dançavam em sombras com os movimentos das chamas. Só o fumo podia libertar-se do Mayombe e subir, por entre as folhas e as lianas dispersando-se rapidamente do alto, como água precipitada por cascata estreita que se espalha num lago."

O enredo segue uma cronologia de fatos, o enredo é bem amarrado e mesmo com os diferentes focos narrativos a história segue e vamos entendendo o movimento guerrilheiro, suas regras, seus pontos frágeis e qual o ideal que buscam seus combatentes. O estilo literário é de um romance político, sendo o livro é dividido em 5 capítulos e 1 epílogo. 

mayombe-floresta

Os personagens nesse livro são todos identificados por seus nomes de combate, são codinomes que trazem uma característica marcante de cada um, por exemplo um dos primeiros personagens a mostrar sua voz e sua história no livro é o Teoria – um homem estudado que atua como professor para os homens do movimento. Há outros personagens em destaque como o Comandante, o líder chamado de Sem Medo, Mundo Novo dentre outros. Todos trazem consigo o ideal da revolução comunista, lutam para reformular a terra em que estão, para que ela seja um país livre do domínio estrangeiro e o povo possa comandar suas próprias riquezas. Porém dentro desse ideal a princípio bem claro, vamos percebendo o quão difícil é juntar e homogeneizar o movimento. 

Cada personagem se apresenta na abertura dos capítulos, conta sua história brevemente e mostra qual a sua ideologia, o motivo pelo qual luta no movimento guerrilheiro. Como dito por um professor angolano em um documentário (Leituras: Pepetela – Mayombe) do Youtube, os personagens não se apresentam como participantes de um romance comum, mas sim como entidades sociológicas. O trecho a seguir mostra um pouco disso, para mim esse foi um dos momentos mais marcantes do livro:

"Eu, o narrador, sou teoria

Nasci na Gabela, na terra do café. Da terra recebi a cor escura do café, vinda da mãe misturada ao branco defunto do meu pai, comerciante português. Trago em mim o inconciliável e este é o meu motor. Num Universo de sim ou não, branco ou negro, eu represento o talvez. Talvez é não para quem quer ouvir sim e significa sim para quem espera ouvir não. A culpa será minha se os homens exigem a pureza e recusam as combinações? Sou eu que devo tornar-me em sim ou em não? Ou são os homens que devem aceitar o talvez? Face a este problema capital, as pessoas dividem-se aos meus olhos em dois grupos: os maniqueístas e os outros. É bom esclarecer que raros são os outros, o Mundo é geralmente maniqueísta."

Nele vemos bem o sofrimento do personagem por ser mestiço em um mundo que não aceita as diferenças, as misturas raciais, e Teoria luta para mostrar que tem valor, que não quer ser definido pela cor de sua pela, pela sua aparência incerta. Esse motivo, esse seu motor como diz, é diferentes dos motivos dos outros personagens, que um a um vão nos contando suas razões. 

"Teoria sentia que o Comandante também tinha um segredo. Como cada um dos outros. E era esse segredo de cada um que os fazia combater, frequentemente por razões longínquas das afirmadas. Porquê Sem Medo abandonara o curso de Economia, em 1964, para entrar na guerrilha? Porquê o Comissário abandonara Caxisto, o pai velho e pobre camponês arruinado pelo roubo das terras de café?"

“Não somos [referindo-se aos membros do MPLA]bandidos. Somos soldados que estamos a lutar para que as árvores que vocês abatem sirvam o povo e não o estrangeiro. Estamos a lutar para que o petróleo de Cabinda sirva para enriquecer o povo e não os americanos. Mas como nós lutamos contra os colonialistas, e como os colonialistas sabem que, com a nossa vitória, eles perderão as riquezas que roubam ao povo, então eles dizem que somos bandidos, para que o povo tenha medo de nós e nos denuncie ao exército”.

Em termos de acontecimentos, o livro nos narra um ataque a um caminhão português, como foi feito o planejamento e ação dos guerrilheiros. Algo bem cinematográfico, no sentido de que é fácil de imaginar como os fatos estão ocorrendo, as batalhas, os reféns que durante o período preso com os guerrilheiros são bem tratados e ensinados sobre os ideiai da luta. Ocorrem mais fatos como prisão de um combatente que trai o movimento no momento que rouba dinheiro de um dos reféns e como é seu julgamento; há a questão do avanço dos combatentes para um novo combate com portugueses; a traição de Ondina com um dos chefes do movimento que ficava na cidade e a desmoralização que se segue desse líder, o qual tem que sair do posto de governo e segue-se uma sequencia de alterações nos postos do comando. 

Mais importante que a sequencia dos fatos,é a fala individual de cada personagem, como vão se destrinchando para nós leitores os conflitos do Tribalismo que as vezes fala mais alto do que o ideal de lutar pela libertação da Angola. Isso é nem criticado pelo Comandante Sem Medo, que por vezes fala que eles não devem se enxergar como Kigongo ou Umbundo, mas como um povo Angolano que luta pela sua paz e união. Outro personagem expressa esse ideal anti-tribalista de uma bela maneira:

Trecho sobre Tribalismo na Angola

Trecho sobre Tribalismo na Angola

Outro ponto de destaque na Obra Mayombe é a questão do papel femino nesse contexto de guerra, como a mulher repensa sua realidade e assume postos diferenciados, a mulher que é retratada é livre, desmistifica a imagem idealizada comumente associada ao feminino. Ondina e Leli são as duas mulheres que demonstram essa quebra de tabus no livro, elas afrontam o homem ao mostrar seus desejos e agir em função de seus ideiais e convicções. A seguir vou reproduzir um trecho de uma análise (retirada do site http://revista.benfazeja.com.br/):

" Em Mayombe, a mulher transita pelo mundo da política, da guerra e do golpe, enfim, o mundo masculino por excelência. Ondina, por conseguinte, tem plena consciência de que também deve fazer parte do embrionário processo revolucionário histórico, social e estético por que passa Angola. Essa adesão, porém, mostra-se mais complexa do que inicialmente poderia sugerir-se. Para essa mulher, aderir a um movimento revolucionário significa uma transformação que não se dará apenas na esfera superficial da sua existência como indivíduo: implicará em questões mais profundas e arraigadas no conjunto da sociedade; significa repensar e contestar o papel social reservado à mulher até então. Por tocar temas tabus nunca antes sequer discutidos pela sociedade, essa mudança manifestar-se-á de maneira mais radical e subversiva e, por isso, não encontrará respaldo no mundo masculino de seus iguais. "

Os personagens que são os heróis do Movimento Guerrilheiro nos são apresentados como pessoas comuns, eles tem falhas, são pessoas como as outras, mas que fazem a luta seguir mesmo assim. Essa postura anti-idealizadora dos personagens foi motivo de polêmica pela crítica local, mas que o autor rebateu dizendo que essa era a intenção mesmo, mostrar as pessoas que compunham aquele combate.

Ilustrações do Livro Mayombe

Ilustrações do Livro Mayombe

A questão da Educação como arma política foi algo que me atraiu bastante na leitura, em alguns momentos certos guerrilheiros criticam os intelectuais que teoricamente não saberiam o que a guerra significaria de verdade, o que o sofrimento seria de verdade. Porém podemos ver no livro o quanto os líderes do movimento, seguindo um pouco um ideal revolucionário comunista, dizem que os guerrilheiros devem receber educação porque é através que não serão dominados, que conseguirão ser alguém na sociedade quando a guerra acabar. A seguir o trecho mostra uma fala do Comandante Sem Medo:

" As pessoas devem estudar, pois é a única maneira de poderem pensar sobre tudo com a sua cabeça e não com a cabeça dos outros. O homem tem de saber muito, sempre mais e mais, para poder conquistar a sua liberdade, para saber julgar. Se não percebes as palavras que eu pronuncio, como podes saber se estou a falar bem ou não? Terás de perguntar a outro. Dependes sempre de outro, não és livre. Por isso, toda a gente deve estudar. Mas aqui o camarada Mundo Novo é um ingénuo, pois que acredita que há quem estuda só para o bem do povo. É essa cegueira, esse idealismo, que faz cometer os maiores erros. Nada é desinteressado."

Um dos trechos mais poéticos do livro, quando fala-se do Mar

Um dos trechos mais poéticos do livro, quando fala-se do Mar

“A imensidão do mar que nada pode modificar ensinou-me a paciência. O mar une, o mar estreita, o mar liga. Nós também temos o nosso mar interior, que não é o Kuanza, nem o Loje, nem o Kunene. O nosso mar, feito de gotas-diamante, suores e lágrimas esmagados, o nosso mar é o brilho da arma bem oleada que faísca no meio da verdura do Mayombe, lançando fulgurações de diamante ao sol da Lunda”.

O que achou da Resenha do Livro de Pepetela? Comente quais os pontos mais importantes e marcantes para você durante a leitura, vamos debater a obra aqui no Blog ABC da Medicina!

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Comentários

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Sobre o autor | Website

Sou estudante do 4º ano de Medicina na Faculdade de Medicina da USP, blogueira desde 2012 quando fazia Cursinho pré-vestibular. Há poucos meses comecei o Vlog Mediários no You tube.

2 Comentários

  1. Heitor disse:

    Bianca, que análise boa! Você escreve muito bem e me inspirou a ler esse livro que, ao meu ver, poderia ser um dos mais chatos da lista da Fuvest. Obrigado!

    • Bianca disse:

      Nossa, fico feliz que tenha gostado do post e que ele tenha te motivado a ler Mayombe!! Esse é sem dúvidas um livro muito interessante, vale a pena a leitura!!! 

      Abraços!!!

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